quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Conecta 89
#ciencia #humano #inteligenciaartificial #Apiai #Iporanga #datacenter
Nadar contra a corrente na era da IA significa preservar o pensamento crítico, a originalidade e as relações humanas em um cenário dominado pela automação rápida.
Ao longo da história, revoluções sociais e tecnológicas moldaram nosso tempo e redefiniram nossas relações com a terra, com o outro, com o trabalho, com a arte, com a informação, com o mundo para além das fronteiras e com as próprias fronteiras. Da Revolução Agrícola ao surgimento da escrita, à metalurgia, à invenção da imprensa, às revoluções industriais, dos transportes e das comunicações. E hoje vivemos a reformulação da sociedade em torno do uso da inteligência artificial. Em cada um desses saltos, a relação de poder entre quem produz e quem se apropria do que é produzido também foi reformulada e forjada em novos termos. Quando se tornou possível obter excedente de alimentos, a tecnologia deixou de ser apenas instrumento de sobrevivência e passou a ser também instrumento de dominação e acumulação. E, a partir da Revolução Industrial, ganhou dimensões nunca antes exploradas.É exatamente nesse fio histórico que devemos compreender o avanço acelerado da inteligência artificial hoje como a nova roupagem de uma lógica muito antiga, em que a tecnologia desenvolvida por quem detém o capital serve aos interesses de quem detém o capital. Nas fábricas, a implementação de máquinas permitiu aos donos dos meios de produção aumentar a produtividade, mas esse ganho não se traduziu em mais tempo livre aos trabalhadores. Traduziu-se em maior exploração do trabalho e extração de mais-valia. Mais do que isso, a máquina também distanciou o trabalhador do próprio ofício. O conhecimento concentrado em quem executava o trabalho foi fragmentado, ocasionando um distanciamento do trabalhador do seu próprio ofício, tornando-o dependente de um processo que deveria estar sob seu controle. A corrida bilionária: A inteligência artificial exige um patamar de capital que poucos atores no planeta conseguem reunir, como centros de dados gigantescos, consumo elevadíssimo de energia, chips especializados caríssimos e as equipes de pesquisa mais bem pagas do mercado global. Tudo isso ainda não garante a hegemonia da ferramenta. Garante, por enquanto, apenas um lugar na disputa pelo domínio do mercado. Pela própria estrutura de custos, ela se concentra nas mãos de poucas corporações privadas e de Estados-nação com capacidade e vontade política de mobilizar recursos em escala parecida. A disputa entre China e EUA, por exemplo, está sendo travada com restrições à exportação de semicondutores, disputa por terras raras e políticas industriais bilionárias, e expõe dois projetos distintos de desenvolvimento da inteligência artificial. Em julho de 2026, Xi Jinping anunciou a criação da Organização Mundial de Cooperação em IA (WAICO), sediada em Xangai, com um pacote de compromissos ao Sul Global. Entre eles, vagas de formação, centros de cooperação com blocos como BRICS e União Africana, acesso a sistemas de alerta climático. “A IA não deve ser solo de um único país, mas uma sinfonia de cooperação internacional”, discursou Xi Jinping na ocasião. É uma proposta que abre uma brecha real de cooperação Sul-Sul, historicamente negada pelos países centrais. Essa disputa em escala planetária não fica restrita aos laboratórios e às cúpulas de governo. Ela desce até o cotidiano de quem usa a ferramenta, muitas vezes sem perceber a que lógica essas respostas servem. O uso cada vez mais cotidiano da inteligência artificial, do trabalho aos estudos e às perguntas básicas do dia a dia, não muda essa lógica. A falsa ideia de democratização que acompanhou a chegada das redes sociais já é bastante conhecida nas reflexões sobre comunicação. O controle sobre o pensamento de grande parte da população pela manipulação de dados, sentimentos e algoritmos virou ciência bem apropriada para tentar definir eleições e rumos políticos. O campo definitivamente não é neutro, tampouco democrático. Muitas empresas já adotaram o mau uso da inteligência artificial, e as consequências disso para o mundo do trabalho ainda não se apresentam em toda a sua extensão. Aplicá-la no cotidiano exige treinamento, debate e análise constante de cada aplicação, para que o conteúdo produzido seja melhor, sempre alinhado à nossa missão como veículo de comunicação popular. Nademos contra a corrente.
Fonte: Brasil de Fato
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